Empatia, responsabilidade e coragem na comunicação masculina

Tempo de leitura: 23 minutos

Nosso entrevistado da vez é Lucas Amaral. Lucas é um dos idealizadores e facilitador do Homens Essenciais, além de desenvolver pesquisas acadêmicas sobre masculinidades desde 2015, afinal, é também doutor em Ciências Sociais, psicoterapeuta corporal Core Energetics em formação e facilitador de Comunicação Não-Violenta. Aqui, Lucas nos fala um pouco sobre Comunicação Não-Violenta e empatia, responsabilidade e coragem na comunicação masculina.

Por Mateus Rodrigues

Lucas, ultimamente começamos a falar cada vez mais de uma coisa chamada Comunicação Não-Violenta (CNV). Uma coisa que é muito bonita na CNV é a busca constante por construir diálogos e relações mais empáticas e responsáveis. Você pode nos dizer o que é a CNV e o porquê do comprometimento com esses valores?

A CNV é um processo; algumas pessoas falam de técnica, outras de metodologia, mas eu entendo como um processo que envolve a nossa capacidade de estar disponível para aprimorar nossos relacionamentos. Fazemos isso nos conectando com os outros e tomando responsabilidade pelo que são os nossos sentimentos e necessidades. 

Marshall Roseberg foi quem desenvolveu a CNV. Ele percebeu ao longo de sua vida, tanto pessoal, quanto profissional, que existia uma presença marcante da violência, seja em escala macro, que leva ao extermínio, seja em escala micro, como em chistes e brincadeiras, na grande maioria das relações. Essa violência é geradora de grande sofrimento. Ao longo de sua carreira como psicólogo, Marshall buscou nas filosofias e tradições espirituais orientais, especialmente na ideia do ahimsa, da não-violência, que foi muito desenvolvida por Gandhi. A partir daí, ele elaborou um processo que é, digamos, uma proposta para o nosso cotidiano e que envolve: 1. uma observação do que é puramente factual nas nossas relações; 2. o reconhecimento do que sentimos e necessitamos nessas relações; 3. por fim, a coragem de pedirmos ou de fazermos acordos com os outros. Enfim, eu resumiria assim a comunicação não violenta.

Você já desenvolve há algum tempo trabalhos com homens. Entre eles, o Homens Essenciais, junto com Pedro Maia e Felipe Bonny, e agora também o Projeto Masculinidades. A partir da sua experiência como homem e com outros homens, como você acha que está a comunicação masculina hoje? Como os homens costumam se comunicar?

Ótima pergunta! Primeiro eu vou situar como a minha trajetória me traz até aqui, trabalhando com esse tema. Vou começar um pouco longe, mas vou ser breve. Eu venho de uma família em que eu não tive a presença do meu pai durante a infância, ele até me visitava, tentava se fazer presente em alguns momentos, mas a presença afetiva, o contato cotidiano, o afeto de fato, isso me fez muita falta!

Além disso, eu fui criado numa família de muitas mulheres: minha mãe, minhas tias, primas, avó. Ao mesmo tempo, meu avô materno era alcoólatra, de forma que a família inteira se mobilizava para ajudá-lo. Com isso, eu e a minha mãe fomos morar na casa da minha avó enquanto meu avô passou um ano de recuperação numa fazenda para adictos. Assim, na minha base de formação, olhar para os homens e os seus exemplos, dentro da minha rede de relações, sempre foi muito difícil. Eram ausências, por um lado, e exemplos de homens adoecidos, por outro.

Ao final da minha graduação, em 2009, eu senti uma crise pessoal muito forte que tinha relação com a minha autoestima, com o modo como as minhas relações afetivas se tornavam cada vez mais co-dependentes, e isso me fez procurar a psicoterapia. Foi quando eu encontrei a psicoterapia corporal Core Energetics (ou Core Energética) e quando fui olhar para a relação comigo mesmo como homem.

Aí, no auge do meu processo de autoinvestigação profunda, eu cheguei, claro, nas ausências com o meu pai e nas referências difíceis que eu tive com homens. Logo em seguida eu iniciei uma formação na Core e fui ter contato com o Paolo Chirola [que hoje compõe o Conselho Diretor do Homens em Conexão], que na época estava se formando na Core e que começou um grupo de exercícios com essa abordagem, mas que logo depois se tornou um grupo de exercícios exclusivo para homens. Eu fiz parte do início desse projeto que hoje se chama Casa dos Homens, um belo projeto guiado pelo Paolo e pelo Lucas Nóbrega. Era um grupo que tinha a meta de fazer exercícios terapêuticos corporais, o que inevitavelmente entrava em contato com temas profundos, como as relações com os pais, homens diversos e a dificuldade de lidar com algumas dinâmicas dentro dos relacionamentos afetivos. 

Ao longo dessas experiências, sempre me chamou atenção o tema da comunicação.  Afinal, minha história foi marcada pela ausência de comunicações e no grupo ficou muito evidente o problema que nós homens temos com isso. Lá eu ouvi relatos de homens muito mais velhos do que eu, já casados, sobre as dificuldades comunicativas que tinham nos seus relacionamentos; homens que tinham desejos sexuais por outros homens, mas que nunca o expressaram ativa ou publicamente por medo.

O que foi me tocando tanto na formação da Core Energetics e na vivência com esse grupo, quanto com os meus primeiros estudos de Comunicação Não-Violenta, foi o fato de que existem duas tendências na comunicação masculina em geral: 1. a de silenciamento, que muitas vezes precisa, literalmente, ser extravasada no grito em processos de terapia, senão vira violência; 2. a de culpabilização dos outros pelas nossas mazelas. Logo mais retorno à essas tendências.

Agora vou falar um pouquinho de como eu enxergo a comunicação no mundo masculino. Eu sou um acadêmico das Ciências Sociais, fiz minha formação em Ciência Política e depois em Antropologia, por fim terminei o doutorado e sempre estudei movimentos sociais, participações políticas, pautas ambientais e sempre tive contato com estudos de gênero. Se olharmos a identidade masculina contemporânea, veremos que ela está assentada em ideias violentas, especialmente quando se trata da “masculinidade hegemônica”, isto é, o constructo simbólico padronizado na maioria das pessoas. 

A identidade masculina é culturalmente associada à violência. Primeiro, ela se assenta na negação a tudo o que é feminino. Uma pesquisa recente da Valeska Zanello mostra que o principal xingamento que se faz a um homem, segundo diferentes gerações de homens – de meninos a idosos – , é ser chamado de “mulherzinha”. Isso já mostra que ser homem não é ser mulher; a negação do que é ser mulher é muito forte na nossa cultura. Até o século XIX, o corpo feminino, principalmente o aparelho reprodutor, não era conhecido de uma maneira profunda pela anatomia; existia uma série de hipóteses de que o órgão genital feminino era, na verdade, a ausência do órgão genital masculino, ou seja, era um pênis invertido: o pênis como referência.

Então temos que, em primeiro lugar, a negação da mulher e, em segundo lugar, a negação de toda e qualquer pessoa que tem relações que fogem à heteronormatividade, e essas duas negações são fundantes do que é ser homem. Assim, ser homem, coletivamente, já passa por uma violência simbólica, que é a ideia de que para se afirmar uma identidade deve-se negar muitas outras.

É claro que isso é comum a toda e qualquer identidade, há sempre uma afirmação de si em relação às outras, mas esse discurso do homem não ser uma mulher e não ser um gay é tão forte que fez com que uma série de pessoas fossem discriminadas, violentadas, invizibilizadas. Essa associação de masculinidade e violência na nossa cultura explica as altas taxas de violência contra as mulheres, a liderança do Brasil nas estatísticas de violência às pessoas trans e os grandes índices de violência contra homossexuais. 

dois homens duelando sem comunicação
The Duel, Wolfgang Lettl, 1985

A comunicação humana entra nessa ideia porque se a identidade masculina já está enraizada na violência e na negação dos outros, logo, a consequência disso é o que chamamos na literatura de gênero de autocentramento masculino, a ideia de que o homem se coloca, nas suas relações, como o padrão de referência. É óbvio que isso tem um impacto profundo na comunicação! A tendência é esse homem não estar muito aberto para um diálogo, não se responsabilizar pelo que sente ou pelo que necessita.

Existe, ainda, uma dificuldade muito grande de identificar sentimentos no universo masculino, pois desde criança somos orientados a ter um comportamento “heróico”, “guerreiro” e sexualmente ativo (conquistador). Então identificar se eu estou sentindo raiva, medo, ódio, alegria, é tudo muito difícil em determinadas situações. Assim, a comunicação acaba sendo autocentrada e com pouca capacidade empática, porque dificilmente se sabe o que se está sentindo. Eu não estou nem aí para o outro, “quem é esse outro?! Eu que mando aqui nessa porra!”. Tanto é que na linguagem chula dizemos que vai “colocar o pau na mesa”. O que é isso? É dizer que “quem manda aqui sou eu”. 

Entretanto, não podemos dizer que a cultura hegemônica é homogênea para todos, pois ela é distribuída: a maneira como nos tornamos nós mesmos é diferente para cada um. No mundo contemporâneo existe uma diversidade de expressões na comunicação. Mas uma linha muito hegemônica, muito comum e muito forte, é a linha do autocentramento e do embotamento emocional, ou seja, da incapacidade de identificar os sentimentos e de se conectar com o sentimento do outro. É uma comunicação que gira em torno do “EU”, “eu penso”, isso é um padrão. 

Mas existem transformações acontecendo. Podemos dizer que cada vez mais homens jovens, principalmente de 13 a 19 anos, vêm se aproximando das pautas feministas, LGBTs e dos debates contemporâneos sobre equidade de gênero. Assim, muitos desses homens vêm percebendo a necessidade de se silenciarem quando estão numa comunicação, principalmente com uma mulher ou com uma pessoa que represente uma identidade diversa da dele como homem cisgênero e heterossexual.

Muitos homens vêm percebendo a necessidade de entrarem em contato com a famosa força – que muito bem traz Benne Brown quando fala de empatia – que é a força da vulnerabilidade, que significa entender que como humano ninguém está imune à vivências difíceis e nem a sentimentos negativos. Entrar em contato, assumir, tomar posse e se comunicar a partir disso tem sido algo que está em operação. Eu vejo, por exemplo, o advento do documentário “O Silêncio dos Homens”, do Papo de Homem, o movimento de alguns fóruns no Twitter, manifestações no Instagram, YouTubers que têm se posicionado criticamente e que ganharam visibilidade como efeitos de uma mudança cultural em curso sobre os sentidos da masculinidade. 

O tema da comunicação se torna ainda mais central se entendermos que o mundo contemporâneo é altamente globalizado e que as formas de interação em diferentes lugares tem uma dinâmica nova. Diante disso tudo, o tema da comunicação no universo masculino está, digamos assim, no centro das grandes controvérsias coletivas. Por exemplo, a controvérsia no âmbito da política institucional de hoje, seja no Brasil, seja no mundo. Existem polarizações que quem vocaliza são homens. A grande maioria das polarizações políticas são vocalizadas, no espaço público, por homens.

No âmbito da pandemia, por exemplo, os discursos que quebram completamente todo e qualquer filtro científico estão sendo vocalizados 99% das vezes por homens. Os representantes dos altos cargos políticos têm feito discursos que são muito sintomáticos do que a variedade da população masculina pensa. O discurso que aparece na TV e fala que a covid-19 é “só uma gripezinha”, é idêntico ao discurso do meu pai, ao do vizinho… E quando nós refinamos o nosso olhar, vemos que são homens que estão comunicando, por exemplo, que o autocuidado e cuidados coletivos são temas “menores” em comparação aos 3 Ps masculinos: Produção, Provisão e Procriação. É uma comunicação autocentrada, despreocupada em reconhecer falhas do seu ponto de vista, preocupada apenas em provar o seu ponto e alcançar um interesse pessoal.

Nós homens muitas vezes parecemos esconder (ou nem tanto), uma profunda insegurança e irresponsabilidade na nossa conduta, além de performarmos uma aparente insensibilidade (“aparente”, pois acredito que não somos insensíveis por natureza, mas que nossa sensibilidade esteja dormente). Consequentemente essas características atuam também na nossa forma de nos comunicarmos. Como você acha que a CNV pode ajudar os homens a se tornarem mais responsáveis e empáticos? 

Bem, praticamente a CNV se divide em quatro passos. O primeiro passo é o da observação. Quando eu me coloco numa comunicação com outra pessoa, principalmente quando acontece alguma situação adversa, segundo o Marshall nossa tendência é avaliar a outra pessoa.  Podemos avaliá-la com rótulos diversos, classificá-la de diferentes maneiras, compará-la, culpabilizá-la… A proposta da CNV é que possamos, ao invés de avaliar, entender o que factualmente aconteceu. Por exemplo, se eu moro com você e você deixa as coisas fora do lugar, ao invés vez de eu chegar para você e falar que você é bagunceiro, eu posso dizer assim: “Mateus, na última semana, durante alguns dias, eu observei que você deixou as coisas jogadas. Está tudo bem?”. Isso muda completamente a abordagem, pois a tendência daquela pessoa que se sente culpabilizada é ou culpabilizar abertamente ou se retrair imaginando horrores do outro. 

O segundo passo é a identificação dos sentimentos que estão por trás da nossa comunicação e das situações que vivemos. E aqui eu concordo em gênero, número e grau com você que no universo masculino há sim sensibilidade, nós sentimos, mas há um certo adormecimento em relação a sentimentos que são chamados de vulneráveis ou que se associam ao que na nossa cultura chama de feminino. Mas é fato que qualquer sentimento que se chame ou não de “feminino” é um sentimento humano importante.

Quando acontece uma situação, a nossa tendência, segundo Marshall, é reagir nos tornando o sentimento e não entendendo que o sentimento é uma expressão de algo mais profundo e que diz respeito não ao outro, mas a nós mesmos.

Um exemplo meu: minha esposa uma vez saiu com as amigas e não voltou cedo, aí eu mandei mensagem e ela não respondeu, eu liguei e ela não atendeu. Naquele momento, na minha cabeça, veio à tona o autocentramento masculino, “é a minha mulher, o que a minha mulher tá fazendo?”, e logo também a minha insegurança. Mas não querendo eu assumir isso, e nem sequer olhando para isso na hora, eu já mandei uma mensagem dizendo que ela era irresponsável e a culpabilizando pela minha preocupação, enfim, vomitei uma mensagem para ela e fui dormir.

No dia seguinte, fomos conversar e o que eu descobri foi que, factualmente, ela tinha se entregado para a experiência com as amigas, uma delas estava passando um processo difícil e ela decidiu ficar lá um pouco mais, ou seja, algo completamente normal. Ela ficou tranquila acreditando na confiança que tínhamos entre nós, mas depois de ler minha mensagem ela ficou super chateada.

comunicação masculina acusativa
13 Attempts to Become a Rooster – 10, Wolfgang Lettl1, 978

O que eu não fiz nessa comunicação? Entender que eu estava inseguro e assumir que o pensamento que me veio foi que ela poderia estar me traindo. Foi só na conversa no dia seguinte que eu entendi isso e pude falar para ela. O meu pensamento da véspera escondia simplesmente a minha insegurança. O que a CNV sugere é mergulhar aí: que insegurança é essa afinal? E talvez a melhor forma de resolver esse problema seja a psicoterapia. Hoje conheço essa insegurança com mais concretude, mas naquela ocasião eu fui tomado por isso, eu me tornei o ciúme.

O terceiro passo é a identificação das necessidades. As necessidades são aquilo que é essencial para cada um, por isso que o Homens Essenciais tem essa ideia de buscar entender o que é essencial, o que não pode faltar… Para mim não pode faltar confiança numa relação afetiva, nem uma comunicação concreta e aberta, para que eu não fique me perdendo em devaneios desnecessários. Então veja, o que eu não soube comunicar para minha companheira naquele primeiro momento? Que (1) eu me senti inseguro e que (2) é importante pra mim que ela se comunique comigo numa mudança de planos repentina e que muda nosso cotidiano convencional. Se eu tivesse feito isso logo de cara, eu teria me aberto para ser vulnerável a tal ponto dela poder dizer que simplesmente não ia fazer aquilo que lhe pedi.

Falar dos sentimentos e necessidades, e fazer pedidos objetivos é também abrir o coração inclusive pro outro dizer “não”. Não é fácil se abrir sem garantias do Sim do outro, né? Veja que não se trata de ser doce e amável, não é nada disso; CNV é sobre ser mais concreto, sair da linguagem da culpabilização e assumir as necessidades. E aí ficamos abertos, inclusive, para a outra pessoa dizer que “não rola”.

Por fim, o quarto passo da CNV são os pedidos ou acordos. Envolve uma boa dose de vulnerabilidade, já que exige de nós a disposição de falar para outro: “você poderia fazer isso por mim?”. É pedir mesmo! Vivemos numa cultura em que as pessoas têm muita dificuldade de pedir. Nesse caso com a minha esposa eu pedi para que ela se comunicasse melhor comigo para que eu não me perdesse nos meus pensamentos. O pedido é simples e a resposta é curta: sim ou não, rola ou não rola. No meu caso, desde essa situação, nunca mais tivemos problemas.

Por que eu falei sobre esses quatro passos? Porque dentro deles está a pergunta que você me fez, sobre como a CNV pode ajudar os homens a se tornarem mais responsáveis e empáticos. Agora é preciso entender o que é a empatia, porque não raro confundimos empatia com simpatia. Somos treinados a vestir máscaras diversas e uma boa máscara para muita gente é a do “agradador”, do bonzinho, a pessoa fala alguma coisa e você ri, você nem sabe o que a pessoa tá falando mas você tá rindo. Isso não é empatia, empatia não é fingimento; empatia é criar espaço para que as necessidades e sentimentos do outro possam se aproximar de você e você possa se aproximar do outro.

Empatia é entender que o nosso ponto de vista não é o único e assim tentar se aproximar do ponto de vista dos outros. Quando nos aproximamos do ponto de vista dos outros, temos a vista de um outro ponto sobre o nosso ponto de vista. Na antropologia falamos que é se familiarizar com estranho para estranhar o familiar. 

Só que a empatia tem degraus: no nível cognitivo a empatia tenta racionalizar o que o outro está expressando; mas no nível emocional – e aqui talvez seja um desafio para muitos homens – no nível emocional trata-se de sentir junto com o outro. Sentir junto não significa se envenenar com os sentimentos dos outros, mas em sentir uma espécie de compaixão.

Nos grupos de homens podemos ver isso bem forte: alguém chega e fala, “poxa, tá foda, minha vida tá uma merda por tais motivos”, o cara está dando vazão. O que é ter empatia nesse momento? Ao invés de aconselhar – que é uma tendência nossa muito forte – é tentar se aproximar, e se aproximar é, às vezes, muito simples, é como dizer, “pô cara, tá doendo né?!”. A disposição da pessoa já muda instantaneamente, porque você realmente se abriu para se aproximar. É claro que a dor da outra pessoa é dela, e a sua é sua, mas a empatia emocional tem essa aproximação. E ela tem a ver com os 4 passos da CNV porque em alguma medida teremos de estar bem atentos ao que é factual, ao que está passando por nós, às nossas necessidades, para que possamos criar um espaço pro outro.

A minha principal professora de CNV, a Carolina Nalon, do Instituto Tiê, fala que quando conseguimos estar bem conscientes da situação e do que necessitamos, é como se pudéssemos nos esticar para chegar perto do outro. E aí uma simples frase como, “tá doendo, né?!” ou “o que eu posso fazer para te ajudar?” é capaz de estabelecer uma empatia enorme. também mantendo em vista, mais uma vez, o cuidado com o que chamamos de contágio emocional. Isso envolve conhecer meus próprios limites, pois pode ser que eu precise me separar do outro pra não me contagiar emocionalmente com ele. 

Falamos da empatia! Vamos falar da responsabilidade que a pergunta traz. Segundo o Marshall, a culpabilização é o que ele chama de comunicação alienante da vida. Gosto do termo “alienante”, pois, de fato, se nós não nos assumimos estamos alheios a nós mesmos, alheios a vida que pulsa em nós. Vou falar de outro exemplo pessoal. Na CNV fazemos isso, pois partimos do pressuposto que estamos em processo de aprendizagem na arte da comunicação humana sempre.

Exemplo real: eu queria viajar com meus amigos para acampar na Chapada. Estava cansado e sentindo necessidade real de espairecer com eles. No entanto, naquele fim de semana minha esposa havia confirmado nossa presença num aniversário de uma pessoa conhecida, mas não muito próxima a nós. Quando eu falei para ela que iria acampar, ela se sentiu bastante ressentida, falando que já havia confirmado nossa presença na festa.

O que eu fiz? Fui o bom “menino da mamãe”, que é uma tendência da minha criação e na relação com as mulheres, e deixei de viajar, fingindo – inclusive para mim – que estava tudo bem. Resultado: Frustração. Foi um evento muito chato e minha vontade era só de me amortecer bebendo muito, além de eu silenciar e me afastar da minha esposa de diferentes maneiras, muitas inconscientes. Após o evento ela me disse que eu estava estranho com ela e com razão, mas aí eu descarreguei nela toda minha frustração. Além da frustração da viagem que não fiz, do descanso que não tive, fiz outra comunicação alienante da vida que foi generalizar apontando que “era sempre assim” e fiz várias comparações: “porque você isso e você aquilo”.

A ausência de responsabilização pelos meus sentimentos e necessidades, pela minha dificuldade de dizer Não e necessidade de agradar, pelos meus medos e inseguranças escondidos atrás da minha persona “agradadora” me levaram a usar a arma da culpabilização. O resultado foi triplamente negativo pra minha própria pulsão de vida, por isso alienante: 1. não fui acampar; 2. não descansei; 3. briguei com quem amo e sequer nos nutrimos afetivamente, só nos distanciamos naquela ocasião. 

Na cultura masculina convencional, tão variável, percebemos um fenômeno comum: a tendência à culpabilização do outro pelos erros cometidos por um homem; ou a tentativa de diminuir um erro deslocando o foco para outro erro. O exemplo pessoal que dei mostra bem isso. Responsabilizar-nos não é assumir que tudo diz respeito a nós; é engajar-se com a própria Vida; não nos alienarmos dos nossos próprios sentimentos e necessidades; é saber – usando uma expressão da linguagem cotidiana – “jogar a real”.

Jogar a real é ser realista consigo e com os outros. Não é tão simples, pois somos educados a assumirmos máscaras sociais que nos defendem de situações hostis e que nos garantem algumas compensações na vida. Ser agradador, por exemplo, é assumir que uma hora vou culpabilizar o outro, pois é impossível ser sempre agradador. Não podemos confundir uma bondade e generosidade genuínas que se expressam nas relações eventualmente com uma tendência agradadora artificial. 

Mais uma vez retomo o tema da vulnerabilidade. Responsabilizar-se é se permitir ser vulnerável e flexível. É aprender a dançar a dança da vida. 1. Em alguns momentos assumir que erramos; 2. em outros, assumir que é possível negociar o equilíbrio entre as nossas necessidades e sentimentos e as do outro; 3. por fim, assumir que se não honramos nossas próprias necessidades e sentimentos estamos nos alienando de nós mesmos. A auto-responsabilidade é um processo de rompimento com as máscaras sociais, de autocuidado e de revelação do que somos para os outros. Revelar-se nas nossas belezas e nas nossas mazelas! 

Na CNV a autorresponsabilidade e empatia são irmãs. No universo masculino e nos grupos de homens podemos aprender muito exercitando-as! Há muitas dinâmicas e exercícios que podem nos ajudar a nos reeducar como homens. Do autocentramento e culpabilização à autorresponsabilidade e empatia – vamos nessa! 

A coisa é toda muito bonita, mas na prática, especialmente pra quem começa, pode ser muito difícil se expressar dessa forma. O desafio não é só conseguir dizer o que realmente sentimos, mas é também a dificuldade de romper com uma cultura que não espera — para não dizer que rejeita — que os homens falem dos seus próprios sentimentos, especialmente daqueles que mostram vulnerabilidade. Acho que precisamos de muita coragem para ser nós mesmos, não é?

Eu gosto muito da ideia de que a coragem é ação que parte do coração, essa origem etimológica da palavra simboliza muito bem do que se trata. A coragem é um pouco visceral, ela envolve o nosso senso animal quando nos exige tomar riscos. Eu costumo dizer, a partir das dinâmicas que temos no Homens Essenciais e tendo lá um Sensei, que a coragem tem a ver com uma guerra que é mais interna do que externa, e com a nossa capacidade de ser realmente íntegro com que é central para nós. Envolve inclusive reconhecer nossas falhas e aquilo que é doloroso e muito difícil.

A principal coragem na comunicação é essa, e talvez esteja aí uma das grandes dificuldades masculinas: a de pedir ajuda. Veja, a coragem de pedir ajuda é revolucionária para os homens. Os índices apontam para uma resistência enorme dos homens em irem à terapia. Nós sentimos, sentimos e sentimos, seguramos, seguramos e seguramos e não procuramos ajuda. Resultado: os homens se matam 4 vezes mais que as mulheres no Brasil.

Ter coragem dentro da CNV tem a ver principalmente com essa última fase, a do pedido, de saber reconhecer que você tem uma necessidade, tem um sentimento e que você precisa de algo. Então a principal coragem do meu ponto de vista é reconhecermos nossos sentimos e necessidades, e ao mesmo tempo sabermos pedir ajuda. Isso é muito importante no universo masculino frente à nossa resistência de ir ao médico, ao autocuidado. 

coragem e responsabilidade na comunicação masculina
The Outcry, Wolfgang Lettl, 1989

Eu e a minha esposa, para dar mais um exemplo, vivemos uma crise muito forte antes do casamento, a ponto de pensarmos em nos separar. Naquele momento, eu achava que estava certo, e ela achava que estava certa, sem ninguém querer abrir mão da sua posição. A coragem ali foi, primeiro, o casal pedir ajuda profissional – psicoterapêutica mesmo – e, segundo, olharmos um para o outro e fazer o pedido sincero de um entender o ponto de vista do outro. Ter a coragem de fazer um pedido como esse já pode desatar um nó da questão. Foi o que aconteceu conosco, e foi o que possibilitou encontrarmos uma terceira via. Mas para isso eu precisei lutar internamente com as minhas resistências, meus medos e meu autocentramento. 

Infelizmente vivemos numa sociedade que confunde coragem com braveza e violência. Eu já acho que a grande coragem está dentro, mas não é essa coragem que costumamos estimular nos homens. O que estimulamos é uma coragem voltada para fora, que gera muita morte e violência. É aquilo de quem faz mais, quem bebe mais, quem pega mais… isso não é coragem, isso é competição. 

Eu finalizo convidando aos homens que lerem esta entrevista a fazerem a viagem interna, mergulharem dentro, mas também a reconhecerem que como coletivo – homens -, por mais que sejamos cada um apenas um – representamos um grupo que vem cometendo violências, silenciando, não se cuidado e não cuidando. São muitos abandonos de si e dos outros! Vamos sair dessa juntos. Como?

Escutando. Ouvindo mulheres, pessoas LGBT sobre suas dores e dificuldades individuais e coletivas. Escutando nossos sentimentos e necessidades. 

Falando. Falando conosco mesmo, a partir de auto-observação, terapias, grupos reflexivos mistos ou exclusivos para homens. 

A CNV é uma poderosa ferramenta de autocuidado e de valorização do CUIDADO. Só somos humanos, pois somos interdependentes. Se somos interdependentes necessitamos, como espécie, de cuidar e ser cuidado. Sem comunicação não há cuidado. Coragem, homens! 

Muito obrigado pela conversa Lucas!

Se quiser conhecer mais sobre o Lucas, veja:

  • VivEssence Terapias

Empresa de terapias em que Lucas e sua esposa compartilham ferramentas da psicoterapia corporal, a Aromaterapia e a CNV. No IGTV (instagram) da VivEssence Lucas ofereceu um conjunto de aulas introdutórias de CNV gratuitamente compartilhando a metodologia O Essencial da CNV, que está se tornando livro e curso online.

Instagram: @vivessenceterapias

Site: https://vivessence.com.br/

  • Homens Essenciais 

Projeto em que Lucas Amaral, Pedro Maia e Felipe Bonny desenvolvem vivências terapêuticas e rodas de conversa exclusivas para homens. O projeto, além do viés vivencial, reflexivo e terapêutico, desenvolve trabalho educativo com palestras, oficinas, vivências e webnários sobre temas relevantes na conscientização masculina. 

Instagram: @homens.essenciais

Site: https://homensessenciais.com

Youtube: Homens Essenciais

  • Projeto Masculinidades!

Criado por Lucas Amaral, o projeto é fruto do desenvolvimento do seu pós-doutorado sobre masculinidades e saúde mental, nas interfaces entre Ciências Sociais e Psicologia. No projeto, compartilha-se informações de cunho acadêmico e psicoeducativo. O Projeto oferece o minicurso online “Construindo Masculinidades: gênero, raça, sexualidade e relações de poder” – uma introdução ao estudo de masculinidades. 

Instagram: @projeto.masculinidades

Site: https://projetomasculinidades.com.br/


O Homens em Conexão publica textos e entrevistas com o objetivo de fomentar a discussão e reflexão. O conteúdo da entrevista é de responsabilidade do entrevistado, e não necessariamente expressa a opinião do Homens em Conexão.

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