Qual modelo de relacionamento é representado na música sertaneja? É o que queremos?

Tempo de leitura: 10 minutos
Photo by Jonathan Borba on Unsplash

Ouvimos sertanejo pra caramba. Ele é de longe o gênero musical mais ouvido no Brasil e apesar de seu ritmo ser, convenhamos, contagiante (às vezes em excesso), não é só por isso que ele angariou a fama que tem. O autor que vos escreve confessa não ser especialista no assunto, mas aposta que o fenômeno se explica muito pelo fato de que nos identificamos um bocado com aquela letra sofrida, que retrata – não sem um exagero de afetação – os desencontros da paixão. E é sobre paixão mesmo, que eu nunca vi um sertanejo que falasse de política ou de religião. “Mas e o sertanejo raiz, o sertanejo caipira?”, poderiam perguntar, com justiça, os saudosos Tião Carreiro & Pardinho ou Chitãozinho e Xororó. De fato, o autor se esqueceu de esclarecer que estamos falando mesmo é de sertanejo universitário; ele pede desculpas. Afinal, é esse gênero específico que conquistou 7 das 10 primeiras colocações das músicas mais ouvidas no Brasil em 2020, e é sobre sua temática constante (e aparentemente incansável) que queremos falar; sim, aqui o que nos interessa é amor e traição.

Mas nos interessa mesmo é tentar pensar como o amor e a traição na música sertaneja são representados, e o que isso pode nos dizer sobre nós mesmos, sobre a forma que entendemos o amor, a traição e outras coisas do tipo. Nessa empreitada, que fique logo esclarecido, estaremos completamente apoiados no trabalho de Valleska Zanello1 e de Mariah Sá Barreto Gama2, Dispositivo amoroso e tecnologias de gênero: uma investigação sobre a música sertaneja brasileira e seus possíveis impactos na pedagogia afetiva do amor em mulheres, duas pesquisadoras que tiveram, elas sim, o trabalho duro de analisar as 100 músicas sertanejas mais ouvidas no Brasil de 2016 a 2018. O que se segue não passa de um resumo, quando muito, uma resenha. Por isso, este pequeno ensaio não dispensa a leitura do trabalho, na verdade a recomenda, e tem como objetivo sobretudo divulgá-lo e, quem sabe, discuti-lo.

A experiência amorosa define identidades

Temos de convir que sofremos com Zé Neto e Cristiano, cantamos até a exaustão Marília Mendonça, mas prestamos atenção no que estamos cantando? Ou ainda, em que representações estamos nos fiando e patrocinando? Para começar, o amor romântico, o pano de fundo onde se passa e possibilita essa sofrência toda, é ele mesmo atravessado e permeado por uma série de expectativas e pressupostos que não encarnariam exatamente o ideal de equidade de gênero que buscamos hoje. Para deixar mais claro, o amor romântico, tal como está posto, produz uma série de implicações identitárias que reforçam e mantém situações de desigualdade de gênero.

Além disso, ponto de partida assumido na pesquisa, a experiência amorosa ainda ocupa um lugar de centralidade na vida das mulheres. Ou melhor, constitui essencialmente sua identidade, pelo menos na cultura ocidental. Isso quer dizer que, da forma como as coisas estão dadas e esperadas, para ser mulher no ocidente é preciso ter uma experiência amorosa. E embora não seja condição única de sua identidade, a relação amorosa ainda é exigência indispensável de sua constituição. A pedagogia dá bom exemplo disso: até pouco tempo a educação das mulheres se reduzia em larga medida numa educação para o casamento e para o lar; não havia, salvo no âmbito religioso, que não deixava de ser, num certo nível, uma exclusão da vida social, outro horizonte possível. Uma mulher que não casasse só poderia ser uma mulher fracassada. Desnecessário dizer que as coisas mudaram, porém mais desnecessário ainda notar que não mudaram completamente.

É partindo dessa ideia que Zanello elabora o que ela chama de “dispositivo amoroso”. Que é isso? É uma categoria de análise para pensar o processo de subjetivação das mulheres contemporâneas. Nessa perspectiva, a pesquisadora acredita que as mulheres, em nossa cultura, formam sua identidade pelo olhar e aprovação de um homem que as escolhe. Ou seja, nessa dinâmica cabe ao homem o lugar ativo de avaliar e escolher, enquanto que às mulheres fica reservado o lugar passivo e desempoderador de ser validada, desejada e escolhida.

Zanello até cria a metáfora da “prateleira do amor” a fim de retratar essa dinâmica. É um lugar simbólico em que a mulher, por meio de um ideal estético e de uma relação hostil de rivalidade com outras mulheres, deve se fazer passível de ser escolhida. A trama é urdida de tal maneira que ao mesmo tempo em que ser “escolhida” é identitário para as mulheres, o fracasso nessa missão as fragiliza. O leitor haverá de lembrar de quando foi a um show ou a uma balada e notou o “clima” desse dispositivo. Naturalmente, não se descarta a possibilidade de que o próprio leitor (ou o autor) estivesse apavorado com a chance dele mesmo não ter sido “escolhido” pela pessoa desejada. Mas queiramos ou não, na maior parte das vezes é esperado que o homem tome a iniciativa, e isso exige, de uma forma ou de outra, que tomemos uma escolha com respeito a quem vamos direcionar essa iniciativa. Porém, há ainda um outro aspecto, essencial para entendermos esse fenômeno. Enquanto um homem só é “homi de verdade” se pegar geral, uma mulher, para as duas pesquisadoras, só se sente “mulher de verdade” se for “escolhida” como parceira, mesmo que temporária, por outro homem. Um terror para os dois lados, mas com a duvidosa vantagem para os homens que permanecem com o polo ativo dessa dinâmica.

Por essas razões, nos dirão Zanello e Sá Barreto, investigar a experiência amorosa é também investigar as relações de gênero. E se é verdade que milhões de brasileiros e brasileiras escutam recorrentemente sertanejo, de muitas formas esses milhões de brasileiros e brasileiras patrocinam um conjunto de representações amorosas que ao mesmo tempo que retratam experiências passadas também definem experiências futuras. Em suma, o sertanejo funciona como uma tecnologia de gênero, isto é, um mecanismo que cria e reproduz identidades e subjetividades específicas. Tudo isso para argumentar que o sertanejo não é só gênero musical, ou que ele é só um gênero musical que mostra ao tempo que cria a forma como nos entendemos e nos relacionamos.

As identidades na paixão sertaneja

Dito isso, vejamos o que as músicas mostraram. As duas pesquisadoras catalogaram em seis categorias as músicas analisadas com base nos seus conteúdos. Três categorias para as músicas cantadas por homens, três para as músicas cantadas por mulheres. As três dos homens:

  1. O apaixonado;
  2. O abandonado
  3. O narcisista exaltado;

E as três das mulheres:

  1. A abandonada;
  2. A outra x A traída;
  3. A apaixonada.

Vejamos o que elas identificaram em cada categoria. A começar pelos homens, na categoria “O apaixonado” o homem é apresentado como um tipo romântico e ideal, com características associadas às mulheres, tais como sensibilidade, medo de amar, de se entregar e ser machucado. Aqui vemos a “transformação do homem”, que muda radicalmente de vida graças a seu amor pela parceira. O cafajeste que se torna um cavalheiro; o pegador que se vê agora comprometido e fiel. Por fim, nessa categoria foi representada uma mulher perfeita, única, inesquecível e insubstituível. Essas músicas apelam ao narcisismo das mulheres e, para as pesquisadoras, incentivam-nas a buscar esse lugar desempoderador de serem “a escolhida”. Já na categoria “O abandonado” temos representada em 4K alguns detalhes da ressaca amorosa dos homens depois de um término ou abandono: fuga pelo abuso (naturalizado) do consumo de álcool, no bar, com outros homens, com direito a autovitimização masculina e culpabilidade e vilanização das mulheres (que são “sem coração”, frias e cruéis, que “usam” os homens); isso para não citar os comportamentos persecutórios e a dificuldade masculina de entender que – meu irmão, ela só não te quer mais. Por fim, a categoria “O narcisista exaltado” completa a triagem com homens autocentrados que se outorgam a prerrogativa de dizer (pois eles o sabem) o que é melhor para as mulheres, afinal ele é a melhor coisa que aconteceu em suas vidas. Aqui, as pesquisadoras identificam três subtemas: “eu sou o seu salvador”, “eu sou o melhor pra você” e “você vai sentir minha falta”. Nessa categoria podemos ver a dinâmica da “prateleira do amor” com nitidez: os homens escolhem, e agora também salvam!, as mulheres. Pelo menos, poderíamos dizer, os homens estão confiantes emocionalmente… Ai de nós, pois a próxima música do álbum é bem do tipo “O abandonado”.

Agora passemos às categorias das mulheres. A primeira é “A abandonada”, em que com o término da relação as mulheres voltam a buscar um bom lugar na “prateleira do amor”; elas dão a volta por cima se pondo de novo numa boa posição para serem escolhidas pelos homens. Além disso, notam as pesquisadoras, o desespero e o sentimento de vazio atravessam essa categoria, mostrando como falhar na manutenção do relacionamento é uma questão identitária. Na segunda seção, “A outra x A traída”, está retratada a rivalidade entre a “mulher oficial” e a “amante”, que vem com tudo e deixa claro a busca pelo lugar da “escolhida”, além de infantilizar o homem como inapto a responder por suas decisões e erros.  Por fim, a categoria “A apaixonada” reproduz os símbolos românticos e tradicionais de casamento e família, tão caros e essenciais à essência identitária da mulher contemporânea. Ali também se nota a alta tolerância feminina aos erros e instabilidades do homem e sua renúncia e sacrífico pela continuidade da relação, mesmo estando magoadas; afinal, paira o medo de ficarem sozinhas e voltarem para a “prateleira do amor”.

Para Zanello e Sá Barreto o resultado de sua análise deixou claro como a música sertaneja reforça e mantém certas expectativas e retratações, que são tecnologias de gênero elas mesmas. Para usar suas próprias palavras: “essa (re)produção [das experiências e relações amorosas] se utiliza de discursos, representações, simbologias e códigos sociais e de linguagem que reforçam a prateleira do amor; a competição entre as mulheres; o empoderamento colonizado; a responsabilidade feminina na conquista do homem e na manutenção do relacionamento; e a exaltação e idolatria de uma figura feminina única e inesquecível: ‘a escolhida’”.

Enviesado demais?

Dois anos já se passaram e poderíamos dizer que as coisas já não estão mais assim. Quer dizer, o sertanejo continua a ser o gênero mais popular do Brasil, mas e suas letras? Mudaram? Poderíamos também dizer que a pesquisa foi demasiado enviesada, deixando à revelia os prejuízos dessas representações para os homens (o que é verdade). Pessoalmente, acredito que seria uma crítica descabida, mas uma provocação fecunda. As autoras tinham seus objetivos e seu escopo e mostraram como pode ser interessante mergulhar na análise pormenorizada de elementos tão corriqueiros. Talvez caiba a uma próxima dupla avaliar o sertanejo desde uma perspectiva crítica masculina; não tenho dúvida de que enriqueceria a discussão.

Enquanto isso, nada nos impede de pensarmos nós mesmos sobre o assunto (e conversarmos a respeito, nos comentários). Então, permita-me algumas provocações. Como te parece que o sertanejo como gênero musical influencia em nossas identidades? Como te cai as representações desse gênero musical? Ou ainda, quais dispositivos incidem sobre a identidade masculina na música sertaneja?

Notas

  1. ^ A Profª Drª Valeska Zanello é graduada em Filosofia e em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), onde também concluiu o doutorado em Psicologia, com período de pesquisas na Université Catholique de Louvain (Bélgica). É professora do departamento de Psicologia Clínica da UnB, onde também orienta o mestrado e o doutorado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura (PPG-PSICC). Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em saúde mental, gênero, psicanálise e filosofia da linguagem. Coordena o grupo de pesquisa “Saúde Mental e Gênero”, com foco em mulheres e interseccionalidade com raça e etnia.
  2. ^ Mariah Sá Barreto Gama é graduanda em Serviço Social na Universidade de Brasília, aluna-perquisadora do Programa de Iniciação Científica 2018-2019, ativista feminina, extencionista e promotora legal popular.
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Observador
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2 meses atrás

Os chamados “sertanejos universitários” apostam na “sofrencia romantica” como mudanças no cenário rural brasileiro, deixando para trás a “sofrencia” do trabalho, inicialmente manual como o preparo da “mistura” para porcos, até o fechamento dos postos de trabalho no plantio e colheita! A vida era sofrida?era, mas a família se reunia a tardinha: pais e filhos, “prosiando” em volta de uma mesa farta! Atualmente presenciamos, pai com afã em “ressurgir” a carreira dos filhos, como dupla e até a filha casando com membro de família de cantores famosos para ter holofotes e o irmão que era “segunda voz da dupla” teve carreira de músico alçando voo!