O Despertar de um Novo Homem

Tempo de leitura: 7 minutos
The Invisible Man, Gordon Parks, 1952

Napaykuna!

Temos visto que no decorrer da nossa história humana, após o declínio das grandes civilizações ancestrais e do matriarcalismo primordial, houve o crescimento de um patriarcalismo selvagem que predomina desde o império romano com maior ênfase, culminando hoje num heteropatriarcalismo. Nossa organização social até a metade do século passado não respeitava o direito da mulher de votar. Temos que convir que a cultura judaico-cristã contribuiu muito para a subjugação da mulher durante todo esse período tenebroso da nossa história mundial. Na década de 1960, as mulheres ganharam maior espaço no cenário mundial, com a criação dos movimentos estudantis e de grupos feministas. No início, estes grupos lutaram pelos direitos civis e políticos das mulheres, procurando equipará-las ao homem. Para atingir esses objetivos, as líderes destes movimentos juntamente com suas companheiras depreciavam o patriarcado, elegendo-o como único culpado na discriminação da mulher. 

Como sabemos, foi constatado que elas estavam certas. Ainda é grande o domínio do masculino sobre o feminino. Durante eras existiu esse domínio, e ainda o vemos hoje em dia, em algumas nações dos povos originários  aqui mesmo no Brasil e em certas etnias africanas, em que o clitóris das mulheres são cortados para que elas não tenham prazer. Em grande parte do mundo, as mulheres vivem à margem da vida social. Elas continuam sofrendo diversos tipos de preconceitos, tais como: salários menores para o desempenho de uma mesma função e uma minoria em cargos políticos. Nas forças armadas, só os homens é que são líderes, e só há bem pouco tempo foi aberto um espaço para elas. Mas ainda é muito difícil encontrarmos alguma mulher no comando de uma força. 

Analisando a tradição Lakota, notei que existe um enorme respeito do filho homem para com a mãe durante toda sua infância e adolescência. Eles só podem olhar para a mãe dentro de seus olhos e falar com ela quando se tornarem guerreiros. Alguns machistas de plantão podem dizer que há um ressentimento muito grande do homem em relação à mulher, devido a eles serem dependentes delas na infância. Freud dizia que a culpa era da mãe, afirmação da qual discordo. Tudo isso vem de longa data, e aumentou mais com o crescimento do capitalismo. Vemos uma onda de consumismo crescente em nosso mundo. Vejam só como o mercado aquece com o fortalecimento da nossa moeda, diminuição dos juros e queda do dólar. Os homens que estão no poder e à frente da ciência não admitem limitações. Eles querem superar todos os limites, mas esquecem que para atingir esse objetivo eles têm que respeitar certas leis. Eles esquecem a primeira delas que é a preservação da Mãe Terra. Não podemos esquecer que estamos entrando numa era em que começará a haver uma luta pela água.

No início dos movimentos feministas, os homens achavam graça no que as mulheres faziam e não as levavam a sério, como se fosse mais uma moda. Mas a disseminação e persistência delas, a adesão da imprensa e os resultados alcançados deixaram os homens perplexos. A profusão de autoras feministas e a quantidade de títulos publicados, batendo sempre na mesma tecla, incentivaram a participação cada vez maior de ativistas e a criação de círculos de mulheres, inclusive com conotações espirituais, tais como o ressurgimento e valorização do culto da Deusa. Tanto este caminho, como o xamanismo, estão voltados para o respeito à Natureza, procurando viver em harmonia com ela. E nós, como guerreiros deste caminho que não tem nenhum cunho religioso, procuramos superar outro limite, que não seja o de bens materiais ou exploração da Terra. Temos sim que expandir a nossa consciência para a construção de um novo homem, um Homem com H maiúsculo, para que junto com sua companheira ou companheiro trabalhem para a cura da nossa Mãe Terra. É isso que proponho a vocês.

Não podemos e nem devemos negar que as mulheres estão nas ruas, nos escritórios, nos clubes, nos bares, em casa, e até nas forças armadas, como já citei. Também não podemos questionar sua inteligência. Pergunto a vocês: E o homem? Qual será o papel dele daqui algum tempo? Será que eles estão prontos para serem o companheiro e amante desta nova mulher? Pelo que eu tenho observado, ainda não. Estou cansado de receber em meu consultório, homens sofrendo por se sentirem inferiorizados à mulher. Eles ainda trazem em suas mentes tacanhas aquela velha frase de que o homem tem que sustentar a família. A maioria dos homens ainda não sabe que as exigências sociais mudaram e, portanto, também eles precisarão mudar. Eles precisam se transformar em um novo homem. O homem que se transformará no amante, parceiro, companheiro e marido dessa nova mulher que desponta a cada dia.

É uma utopia acreditarmos que o machão, aquele que espera da mulher ser boa mãe, boa cozinheira, mantenha a casa em ordem, administre o lar com a mesma competência revelada nas horas diárias que ela dedica à empresa onde trabalha, simplesmente vai deixar de existir de maneira cordata e pacífica. O homem terá de compartilhar o espaço da casa e todas as obrigações com a mulher, como está compartilhando no mercado de trabalho. Temos que nos lembrar que a busca da igualdade de direitos não elimina as diferenças, nem os valores já incorporados. O perigo que está se criando em torno do novo papel da mulher na sociedade tende a transformar o homem, cada vez mais, no vilão da história. Creio que interromper esta tendência e revalorizar o homem, indo ao encontro das aspirações femininas, não será menos doloroso do que foi a revolução feminina, iniciada há mais de meio século.

Baseado em tudo que falei até o momento, está havendo um despertar deste novo homem. Nos quatro cantos do mundo está surgindo grupos de homens, que juntos, num ambiente de confiança mútua, congraçamento e convívio fraterno se reúnem sempre, procurando discutir sobre esse tema e nossas aspirações. Procurando saber o que deve ser feito e, principalmente, como fazer. Criando, assim, condições para o ressurgimento do homem que atenda às exigências da nova Sociedade. 

Ao fundar o Clã Lobos do Cerrado com alguns amigos em 1995, nós começamos a trabalhar este novo homem em reuniões mensais, sem nenhuma conotação política ou religiosa. Procuramos usar práticas e técnicas arcaicas de autoconhecimento que aprendemos dentro do Xamanismo, para fortalecer nossa estrutura emocional, tornarmo-nos mais centrados e aptos a administrar nossas vidas de maneira compatível com as novas exigências dessa nova era.

Nosso grupo sempre foi muito diversificado. Temos antropólogos, sociólogos, físicos, agrônomos, engenheiros, biólogos, químicos, médicos, terapeutas e ecologistas. Pessoas que se reúnem mensalmente visando trabalhar em prol de um novo Homem, procurando respeitar a Mãe Terra e as mulheres, vislumbrando um novo tempo que virá. Procuramos, entretanto, termos cuidado com os nossos atos dentro e fora das reuniões, pois essas ideias que discutimos são temidas por uma classe dominante e outros segmentos da sociedade que servem a essa classe. Foram eles que denegriram a imagem do movimento New Age, minando o trabalho de pessoas sérias, criando alguns modismos como os duendes e cristais, que terminaram banalizados. Estamos cansados de ver anúncios de workshops sobre xamanismo, reiki, bruxaria, do tipo self-service, nos quais pessoas saem desses finais de semanas dizendo-se xamãs ou mestres em alguma coisa.

A ecologia, o feminismo, o xamanismo, o resgate da Deusa, os trabalhos holísticos e terapias alternativas, são alguns dos campos que procuram uma resposta para a real preservação da Natureza, de uma maneira mais criativa e natural para que não haja uma crise global de nossa civilização. Por isso, devemos ficar de olhos abertos, pois existem conspiradores em muitas dessas frentes, que só visam atrapalhar os objetivos que pretendemos. Não podemos deixar que o nosso caminho seja deturpado e se transforme em uma espécie de movimento inexpressivo. Falei aqui em movimento, pois é através de nossos atos em nossos encontros, jornadas, em casa e locais de trabalho que mostraremos a que viemos. Nossas intenções são boas, mas como diz o ditado: “De boa intenção, o cemitério está cheio”. Trabalharemos sempre juntos, como irmãos que somos. Abrindo nossos corações e procurando nos melhorar a cada dia mais, para que as marcas que deixamos pelo caminho, inspirem outros na busca do despertar deste novo homem.

Munay

Wagner Frota

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Observador
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27 dias atrás

Percebo que o Feminismo “peca” por Não evidenciar o direito da mulher no Mercado de Trabalho, mas por inseri-la com viés de “revanche” as décadas em que foi atribuido ao homem ser o provedor! Tenho Enorme Admiração pela Angela Merkel, pela sua trajetória: criada na região alemã governada pela então URSS, foi a que mostrou ao mundo que o capitalismo pode e deve ser humano, diminuindo a carga horária do trabalhador alemão, para absorver os que estavam desempregados, após a reunificação do País, iniciativa que o Brasil poderia seguir! Já a inglesa Margareth, nos deixou o flagelo do Neoliberalismo, que deixou vários países latino americanos, em especial, falidos, com o Governo Federal/Central, altamente arrecadador de impostos, desestatizando setores importantes como telecomunicações, mineração (como a Vale), várias empresas do setor elétrico, privatizando! Dois exemplos de mulheres importantes, mas lembrando, que homens e mulheres, merecem seu espaço profissional mas demonstrem competitividade na área que abraçarem! Nas relações pessoais afetivas, entre homens, conjugais ou parentais (amizade) ainda há “orgulho” em reconhecer ter sido ajudado por outro homem, a tal ponto inclusive, de evitar voltar a pedir ajuda (percebo isso, com meus irmãos em relação a mim)! Já com um citytour taxista, ele notoriamente foi machista até em âmbito “sexual”, fez questão de me ressarcir a metade do valor pago em almoço (prato que dava para os dois) e, na praia, perto de uma calçada que necessitava de manutenção me deu a mão para “me segurar” e até levantou meu braço como namorado faz com namorada, ou seja, me concedendo “deferência” como se eu fosse mulher!!! Por estar 3 dias a meu serviço quis como mostrar aos outros taxistas que não era “amor de verão” como se diz!