A “desconstrução” me destruiu e os homens me construíram de volta

Tempo de leitura: 4 minutos

Babylon – Donald Maxwell, 1919

Devo confessar que minha caminhada de autodescoberta masculina só começou pela inveja e pela raiva – àquele tempo muito bem disfarçadas – que eu sentia pelas mulheres. Eu as via no auge, surfando na crescente avalanche feminista das últimas décadas, enquanto os homens, e eu, no meio dessa história, lutávamos para não sermos soterrados. Afinal, eu também queria me sentir especial. Uma coisa muito difícil quando só o que eu ouvia era, pela boca das feministas, a ordem de “desconstruir” minha masculinidade tóxica e hegemônica e destruidora de lares, ou, pela boca homens tóxicos, hegemônicos e destruidores de lares, a ordem de assumir o homem tóxico, hegemônico e destruidor de lares que eu era. Enfim, ser homem não parecia tão legal assim. Mas entre ser desconstruído e me aliar a essas mulheres tão legais, e assumir uma masculinidade tradicional e me aliar a homens que eu desprezava, escolhi a primeira alternativa.

Parecia ser um tempo de mulheres fortes, e de homens tísicos ou abomináveis. Mas eu queria ser como elas, num mundo, porém, em que isso já não parecia mais possível aos homens.

Então se era para eu me “desconstruir”, minha personalidade obediente consumou a ordem. Mas consumou como pode. A pura e simples desconstrução não tardou a cobrar seu preço e eu me vi uma ruína: um homem acuado, infantil, inseguro e servil. Era um resultado inevitável; e isso deu-me raiva; e lembrei-me de que minha raiva era nociva, pois era o sémen da destruição masculina que flagelou o mundo por eras. A desconstrução havia me arrastado para uma impossibilidade lógica: reverter as consequências de uma cadeia causal necessária. Tive então de ir recobrar minha sanidade e buscar meu lugar ao sol.

Fui a outras paragens e percebi – como havia sempre pressentido – que a desconstrução só é legítima quando precede uma edificação enobrecedora, ou então é só outro nome para a barbárie. Para que não seja uma destruição, a desconstrução tem de prever uma construção contrária, qualquer coisa de positiva para colocar no lugar do que foi retirado, e isso era uma coisa que mulher nenhuma podia fazer por mim.

Não podia e, sinceramente, nem acho que gostaria. Além disso, essa tarefa não lhes compete, e nem poderia lhes competir. Só um homem pode ensinar outro homem a ser um homem, seja lá o que isso signifique, porque a presença e a relação são duas coisas essenciais na educação. Duas coisas que situam a desconstrução no seu devido lugar.

Ao encontrar homens e grupos que eram exemplos positivos de masculinidades possíveis e reais, notei que toda aquela desconstrução encontrava um outro sentido, ou melhor, tornava-se, finalmente, reconstrução. O que mudou é que ali a desconstrução não era mais um discurso ou uma ordem, mas um exercício. E como exercício fazia-nos construir, ao mesmo tempo, um outro jeito de ser homem. Está aí toda a potência da presença que o mero discurso não alcançava.

 Quando a desconstrução era apenas discurso, apenas teoria, quando me chegava de fora, de pessoas que não partilhavam da minha condição, ela não dava-me alternativas; era, por assim dizer, unilateral, resumia-se a indicar como eu não deveria ser.  Mas quando ela aparece pela presença de um homem que quer ser melhor, quando se mostra na vida de pessoas que são homens como eu, a desconstrução acontece no mesmo instante que a construção. O movimento se completa. Um homem, enfim, é o único que pode me dar um exemplo de como ser homem, e não apenas um contraexemplo de como não ser.

Hoje eu vejo que o discurso feminista tem a (mais que) necessária e irrevogável função de nos abrir os olhos paras os resíduos podres de nossas masculinidades – como aconteceu comigo, anos atrás. Isso pode bastar para uma agenda política ou para um sistema de ideias, mas é insuficiente para uma pessoa humana, precisamente porque uma pessoa humana não pode apenas se desconstruir. Só homens reais podem prover o material e a referência para construir outras masculinidades, isto é, outros homens reais.

Era esse o segredo das minhas amigas que demorei a perceber. Elas tinham não apenas ideias sobre outras formas de serem mulheres, mas elas presenciavam mulheres que eram de outras formas. A desconstrução que eu via no seus discursos era complementada por uma construção que eu ignorava nas suas vidas.

Eis porque tenho sempre um certo incômodo quando escuto injunções à “desconstrução masculina”. Acho que o termo não ajuda muito, como ajudou só lateralmente em minha adolescência. Acredito que os homens já estão deteriorados demais para outra desconstrução. É tempos de homens reais, homens presentes. Homens capazes de finalmente nos doar, mais uma vez, a possibilidade de sermos homens inteiros.

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